Van Halen e os M&Ms Marrons

Com o avanço da tecnologia nas últimas décadas, os estudos e os entendimentos sobre todas as áreas do conhecimento, cresceram exponencialmente. Nunca, em toda a história da humanidade, tivemos que lidar com tantas informações simultaneamente. Em consequência, os níveis de especialização aumentaram na mesma proporção. Tomar as decisões corretas, em períodos de tempo cada vez menores, tem se mostrado extremamente difícil. Máquinas e softwares ajudam, mas suas atuações ainda são limitadas. Chega uma hora em que a palavra final, ou a ação final, continua sendo do especialista que está conduzindo a atividade.

Há algum tempo venho tentando compreender as causas das maiores dificuldades e pressões que sofremos na área de tecnologia. Às vezes tenho a nítida sensação que projetos pequenos de TI não existem mais, só conceitualmente. Qualquer empreendimento, por menor que seja, envolve equipes de especialistas em dados, programação, análises, infraestrutura, testes, contratos, montagens de ambientes, entre outros. A questão aqui é: como checar a evolução do trabalho, de tantas pessoas juntas e com os mais diferentes tipos de conhecimento, de uma forma rápida e segura?

Muitas vezes, para um problema complicado, a solução é muito simples. E as ideias podem vir dos locais mais inusitados possíveis.

No final da década de 70, a banda americana Van Halen entraria para história como uma das bandas de rock mais inovadoras e influentes de todos os tempos. Com um estilo único e quilos de equipamentos e sons, a banda redefiniu a forma de se fazer entretenimento e suas aparições públicas se tornaram antológicas.

Em certa ocasião, vazou para a imprensa que o vocalista David Lee Roth, exigia que os contratos da banda Van Halen com os promotores, contivessem uma série de cláusulas especificando itens que eram, à primeira vista, no mínimo bizarros. Entre elas, a que se tornou uma lenda foi a de que, em todas as apresentações, deveria haver uma tigela de chocolates M&M nos camarins, com todas as cores exceto o confeito da cor marrom, sob pena de cancelamento do show e pagamento de multas no valor igual aos contratados. Sabe-se que, pelo menos uma vez, a exigência não foi atendida e Roth cumpriu a cláusula, cancelando o show.

Entretanto, longe de ser mais uma excentricidade das grandes celebridades, essas cláusulas contratuais, conforme descobriu-se mais tarde, eram truques geniais para controle e gestão de projetos. Em sua autobiografia, Crazy from the Heat, Roth descreveu o quão complexo era organizar uma apresentação do Van Halen naquela época. Segundo ele, o Van Halen foi a primeira banda a levar suas superproduções às cidades pequenas. A logística exigia, entre outras coisas, o transporte de toneladas de equipamentos em nove caminhões de 18 rodas, montagem de infraestrutura em vigas que não sustentavam o peso da aparelhagem e o chão afundava, estradas e ruas pequenas onde não havia espaço suficiente para a passagem e o equipamento, simplesmente, “entalava”.

A quantidade de especificações técnicas e procedimentos tornavam esses contratos muito semelhantes às páginas amarelas de uma companhia telefônica. A eminência de erros, que colocariam vidas humanas em perigo, era enorme.

Roth, então, teve a ideia de colocar cláusulas contratuais inusitadas, mas de simples conferência, em pontos estratégicos do contrato, ou seja, próximo daquelas que fossem de maior risco e que, portanto, exigiriam maior atenção. A partir daí, e com checagens simples, ele conseguiria ter uma ideia da precisão que os técnicos tiveram na montagem da infraestrutura do show.

Quando Roth entrava no seu camarim e encontrava um chocolate marrom na tigela, a conclusão era imediata: “ou o líder do projeto não tinha sido detalhista o suficiente para conferir a cor dos confeitos, ou, mais grave ainda, não tinha lido todas as especificações do contrato”. Além disso, observava se alguém o procuraria para perguntar até que ponto da tigela tinha que se atingir com os M&Ms (uma vez que a especificação era, propositalmente, imprecisa). O raciocínio de Roth era muito simples: se um líder não foi detalhista o suficiente para lidar com tarefas simples, então, a probabilidade de negligências com atividades maiores e de maior risco poderiam ser enormes.

A solução de Roth para o problema da checagem de pontos chaves, em uma especificação complexa, é genial. Meu conceito para ‘genial’ é uma coisa simples, eficaz e com custo irrisório. Podemos reduzir, substancialmente, o volume de falhas evitáveis através de checagens, para todo tipo de dificuldades, utilizando checklists criativos como este.

Infelizmente, a imprensa sensacionalista não foi inteligente o suficiente para perceber a grande sacada do conceito e deu muito mais ênfase à parte fácil e visível da notícia do que da ideia que a originou. Muito pior ainda, são algumas celebridades que vieram depois, que só conseguem executar e demonstrar o lado mais bizarro de suas excentricidades, sem nada de inteligente para oferecer em troca. Fazer o quê, né!?

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